O Processo de Auto-Realização

Parte do Ensaio: Embodied Nonduality escrito por Judith Blackstone, PhD

 

Realization Process = Processo de Auto-Realização 

 

Eu ensino uma série de práticas chamadas de Realization Process: Processo de Auto-Realização.

 

Nesta abordagem, a abertura radical do despertar não-dual é descoberta através do contato profundo com o espaço interno do corpo, e com um canal sutil que corre verticalmente através do nosso tronco, pescoço e cabeça. Estas práticas são complementadas por um método de liberação somática ligada aos padrões psicológicos presos, a fim de habitar mais plenamente o corpo.

 

Habitar o corpo é diferente de estar consciente do corpo. Isso significa que estamos, na verdade, presente dentro do espaço interno do corpo. Experimentamos que somos o espaço interno do corpo; isso faz parte de quem somos. Como já disse, habitar o corpo revela duas coisas: uma coerência interna e a transparência não-dual sutil que permeia o eu e o outro como uma unidade.

 

Embora o Processo de Auto-Realização tenha emergido de obstáculos e insights do meu próprio caminho, e em resposta às necessidades das pessoas que têm vindo a praticar comigo, há muitas referências para a conscientização do corpo na literatura espiritual asiática. O japonês filósofo, Yuasa, escreve: "A mente aqui não está na consciência superficial, mas é a mente que penetra o corpo e profundamente o subjetiviza"(1987, p. 105).

 

No Processo de Auto-Realização, consideramos a total integração mente-corpo como um ideal na direção a que podemos progredir. Nós não precisamos nos libertar de todos os nossos padrões psicológicos presos a fim de realizar a não-dualidade. No entanto, mesmo depois de ter se estabilizado na realidade não-dual, podemos continuar a nos tornar cada vez mais abertos à unidade e à transparência do nosso corpo e do ambiente.

 

O Núcleo Sutil

 

A maneira mais eficaz que eu encontrei para nós deixarmos de nos prender somaticamente a nós mesmos é acessando o núcleo sutil do corpo. O núcleo sutil do corpo é concebido como um fino canal vertical que se estende desde o centro da parte inferior do tronco (e abaixo) para o centro de parte superior da cabeça (e acima). Ele é chamado de “canal central” ou o "canal da sabedoria" em budismo tibetano e sushumna no sistema de ioga indiano. A partir deste fino núcleo de nós mesmos, estamos desembaraçados de todo o conteúdo de nossa experiência.

 

Em Yoga, sushumna é dito ser composto por três canais, aninhados uns dentro dos outros. O canal mais interno é considerado o canal mais sutil. No Processo de Auto-Realização, nós também penetramos com nosso foco o núcleo mais íntimo deste canal. Eventualmente, nós sentimos que estamos vivendo dentro deste canal, que este canal é parte de quem somos.

 

Nós cultivamos o acesso a este canal encontrando pontos no interior do núcleo do corpo, e iniciando a respiração dentro destes pontos. Podemos entrar no núcleo sutil do corpo em qualquer lugar ao longo dele, mas, no Processo de Auto-Realização, entramos principalmente através do centro da cabeça, do peito e da pélvis.

 

O centro de sua cabeça pode ser encontrado aproximadamente entre suas orelhas, no centro do espaço interno da sua cabeça. Em outras palavras, eu não quero dizer o centro entre as sobrancelhas ou parte superior da cabeça. No momento que  você entrar no centro de sua cabeça, você vai sentir uma vibração tênue por toda parte baixa do seu núcleo sutil.  A maioria das pessoas encontram este ponto muito alto nas suas cabeças. Se você puder sentir a vibração para baixo ao longo de todo o seu núcleo, você sabe que você encontrou o ponto no centro da sua cabeça.

 

Os pontos do centro do peito e da pélvis são encontrados concentrando-se para dentro o mais profundo que você puder sem tensão, em seu peito e em sua pélvis. Todos os pontos de dentro do núcleo sutil do corpo podem ser reconhecidos pela sua vibração tênue. É importante encontrar o ponto pela sensação, ao invés de por uma localização anatômica.

 

Onde quer que nós entremos no núcleo sutil do corpo, sentimos como se tivéssemos entrado em nosso ser completo. Quando respiramos dentro de qualquer ponto no núcleo sutil do corpo, a respiração produz uma vibração tênue ao longo de todo o corpo. Tem sido dito muitas vezes que não há um centro na realização da não-dualidade. Também tem sido dito que a realização da não-dualidade está em toda parte. Uma vez que nos tornarmos hábeis em encontrar o núcleo mais íntimo do nosso corpo, achamos que podemos entrar em todo o nosso corpo/nosso ser ao mesmo tempo através de qualquer lugar em nosso corpo. Nós também podemos sentir uma ressonância entre o núcleo sutil de nosso próprio corpo e o núcleo sutil do corpo de outra pessoa. O centro, que está em toda parte em nosso corpo é o mesmo centro que está em toda parte no corpo da outra pessoa.

 

O núcleo sutil é um portal para a totalidade de nosso próprio corpo/ser e a unidade que transcende nosso ser individual. Ao se liberar a partir do núcleo sutil do corpo, nos deixamos  penetrar na dimensão fundamental do nosso ser. Descobrimos nós mesmos como a transparência unificada e penetrante do Ser e do outro.

 

A partir do núcleo sutil do corpo, podemos soltar nossas amarras limitantes das nossas experiências, de modo que os nossos pensamentos, sentimentos, sensações e percepções possam fluir de forma mais fluente. Também podemos nos livrar dos nossos padrões fixos de nós mesmos e dos outros, de modo que eles possam na verdade, se dissolver. Desta forma, o despertar não-dual torna-se uma transformação estável e duradoura do ser. Não é um estado de ser que implica em uma posição fixa ou um foco fixo, e também não é uma experiência extraordinária transitória.

 

Incorporar a realidade não-dual é tornar-se mais vivo dentro de nossa própria pele. O filósofo Hisamatsu escreve: "O nada do Zen não é sem vida, como o vazio, mas, pelo contrário, é algo bastante animado. Não só é animado, mas também tem coração e, além disso, é consciente de si mesmo "(citado em Stambaugh, 1999).

 

Pareceu-me que a não-dualidade é por vezes ensinada com uma atitude punitiva, como uma  forma de auto-negação, e não como uma jornada para sair do meio do caminho em nossa apreciação da vida. Mas a percepção da não-dualidade torna a vida mais vibrante, com mais impacto e muitas vezes mais agradável. Nós não nos tornamos zumbis, incapazes de responder ao nosso meio ambiente ou incapazes de lembrar a riqueza de nossas histórias individuais. Ao descobrir nossa natureza não-dual fundamental, nos tornamos seres humanos autênticos, transparentes e presentes ao mesmo tempo.

 

 

Referências: 

Godman, D. (1992). Be as you are: The teachings of Sri Ramana Maharshi. New Delhi: Penguin Books India.

Gyamtso, K. T. (2001). Progressive stages of meditation on emptiness. Auckland, New Zealand: Zhyisil Chokyi Ghatsal Publications.

Hookham, S. K. (1991). The Buddha within. Albany, NY: State University of New York Press.

Lin Chi (D. T. Suzuki, Trans.). Retrieved November 20, 2011 from website:http://enlight.lib.ntu.edu.tw/FULLTEXT/JR-AN/an141158.pdf ).

Muller-Ortega, P. E. (1989). The triadic heart of Shiva. New York: State University of New York Press.

Nishitani, K. (1982). Religion and nothingness. Berkeley and Los Angeles, CA: University of California Press.

Rabjam, L. (1998). The precious treasury of the way of abiding (R. Barron, Trans.). Junction City, CA: Padma Publishing.

Rabjam, L. (2001). The precious treasury of the basic space of phenomena (R. Barron, Trans.). Junction City, CA: Padma Publishing

Sankara (1989). Upadesa sahasri (S. Jagadananda, Trans.). Madras: Sri Ramakrishna Math.  

Sherab, P. & Dongyal, T. (2007). Rangtong and Shentong views. Sidney Center, NY: Dharma Samudra.

Stambaugh, J. (1999). The formless self. Albany, NY: State University of New York Press.

Yuasa, Y. (1987). The body. (N. Shigenori & T.P. Kasulis, Trans.). Albany, NY: State University of New York Press.